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Porque vou para as ruas - Luciana Chemim

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Resisto a certos temas, não pela falta de opinião ou posicionamento, mas para evitar a propagação do discurso do ódio que, tristemente, presencio nas redes sociais todos os dias.

Há certas coisas que não precisamos experimentar no corpo para saber que doem. A morte é uma delas. E há algum tempo venho morrendo.

Morri por pessoas que partiram precocemente.

Morri de tristeza, de indignação, de raiva e de frustração.

Morri por me colocar no lugar de pessoas que nunca vi, nem conheci.

Morri quando optei por permanecer mais tempo do que devia e também morri por ter saído antes do que queria.

Morri pelas mágoas que causei e pelas punhaladas que levei.

Morri por sentir vergonha alheia e pela impotência de nada poder fazer.

Morri pelo menino Bernardo, pela garotinha Isabela e por tantas crianças sem rosto e sem nome que perambulam pelas ruas.

Morri por tragédias que não eram minhas.

Morri pela lama de Mariana, pelos Atentados em Paris, no Afeganistão, nos pontos de ônibus, nos Morros e no Planalto Central.

E hoje morro pelo meu país.

Morro quando leio que alguns querem a volta da ditadura.

Morro quando assisto trocas de palavras de baixo calão por pessoas que se chamam de "Vossa Excelência".

Morro quando vejo o Supremo assassinar a sangue frio garantias conquistadas pela nossa Constituição de 88.

Morro quando leio "doutores" espezinhando o povo que foi às ruas para gritar contra a corrupção, chamando-os ignorantes por bradarem contra um governo comprovadamente sujo sem olharem para o passado da nossa história política.

Morro quando vejo nossa democracia arduamente conquistada ser zombada pelos que se acham no direito de falar o que pensam, mas não toleram ser contrariados pela opinião ou pelo sentimento do outro.

Morro quando leio posts em minha página repassando notícias pela chamada apelativa e sensacionalista e cujo conteúdo falacioso me leva a, sinceramente, acreditar que sequer tenha sido lido pelo “esparramador” da fofoca.

Morro quando presencio amigos trocando farpas doídas por um partido, uma convicção, uma ideologia, sem muitas vezes nem saberem sobre o que estão falando e o que estão defendendo.

Morro pelo Golpe de Estado que estamos sofrendo.

Morro pela falta de ética, pelas nossas corrupções diárias.

Corrupção, pra quem parece ainda não saber, existirá sempre que houver alguém que queira levar vantagem sobre qualquer coisa. Na vida pública, na fila do bar, na alfândega, no troco do mercado, na cola da prova, na nota superfaturada, no plágio, na carteirinha de estudante falsificada, na “gorjeta” paga para evitar uma multa de trânsito.

A corrupção sempre será uma possibilidade e, portanto, uma ESCOLHA. Não tem cor, não tem classe social, não se filiou a algum partido específico. Está aí para quem quiser abraçá-la. De vermelho até os pés, de azul tucano ou enrolados na bandeira do Brasil.

E pra não morrer sufocada pelas palavras guardadas, compartilho meu sentimento de abandono, tamanho o descaso de nossos representantes com o povo brasileiro.

É assim que me sinto como cidadã que ama seu país e que trabalha duro para dar ao filho uma educação que lhe ensine, mais do que sobre partidos políticos, a lutar por uma sociedade mais humana, mais equilibrada, mais justa ou menos desigual e contraditória.

O que eu espero? Que essa passagem desoladora da nossa história não seja em vão.

Que cada um possa olhar para dentro e fazer a sua parte antes de atirar pedras no vizinho que acordou cedo e foi para as ruas gozar de sua ainda preservada liberdade de expressão, do seu direito de dizer: esse jogo eu não jogo e não apoio!

Agora é hora de juntar os caquinhos da nossa dignidade e lutar.

E é por isso que vou para a urna e também vou para as ruas.

Para que não morra em mim a esperança de um Brasil melhor.